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Conhece azeite brasileiro? O da Mantiqueira é fresco e cheio de polifenóis

Luciana Mastrorosa

22/02/2018 08h00

As oliveiras e seus frutos, na Olibi (foto: divulgação)

O azeite de oliva é um dos alimentos mais antigos do mundo, e o hábito de consumi-lo chegou ao Brasil por influência dos portugueses. Até hoje, muita gente acha que o melhor azeite do mundo é o de Portugal, e que as oliveiras não se dão bem na nossa terra, por isso não temos um azeite para chamar de nosso. A realidade se mostra um pouco diferente: Portugal tem, sim, alguns dos grandes azeites do mundo, mas Espanha, Itália e mesmo Grécia não ficam atrás em termos de qualidade e sabor. E, agora, para nossa sorte, produtores brasileiros vêm investindo bastante na chamada olivicultura – o cultivo de azeitonas – para produção de azeite.

Como estamos em plena colheita de azeitonas, fui convidada para visitar uma das principais fazendas de azeitonas na região de Aiuruoca, Minas Gerais, a cerca de 5 horas de viagem de São Paulo (de carro), e provar os azeites que estão sendo envazados agorinha. Nem preciso dizer que adorei o convite e a oportunidade de ver, de pertinho, esse mercado que está nascendo no Brasil. Assim, em meio àquelas paisagens de tirar o fôlego, chegamos à Olibi, do executivo Nélio Weiss, para visitar a plantação, entender como a azeitona vira azeite e, claro, provar esse ouro líquido.

O diferencial do azeite brazuca
Dentre os convidados à visita, estava Paulo Freitas, engenheiro de alimentos e especialista em azeites. Paulo presta consultoria para algumas fazendas da região de Aiuruoca, como a própria Olibi, pois a cultura da oliveira ainda está muito no começo. "A maioria das pessoas não tem a mínima noção de que o Brasil já está produzindo azeite de qualidade. E faz sentido, porque ainda é difícil encontrar esses azeites para comprar, a produção ainda é bem pequena", diz Paulo. "Comparando-se a produção brasileira com a Espanha, por exemplo, ainda somos bebês. Mas o diferencial do nosso azeite é, principalmente, o frescor". Como Paulo me explicou, diferentemente dos vinhos, o azeite não envelhece bem e, com o tempo, pode ficar rançoso. Assim, é muito vantajoso haver uma produção 100% nacional, pois isso amplia a possibilidade ao consumidor de encontrar um azeite novo, no auge de suas propriedades gustativas e também para a saúde. "Quanto mais fresco, mais perfeito o azeite está em termos de gordura, vitaminas e polifenóis", diz Paulo.

A gordura do azeite é do tipo monossaturado, que já é excelente para a saúde. Se o azeite for novíssimo, como o Novello 2018, que provamos na Olibi, sua estrutura está preservada, ou seja, o ranço passa longe. Além disso, no azeite novo os polifenóis – antioxidantes naturais – estão bombando, trazendo diversos benefícios para a saúde. Por isso, quando mais tempo de prateleira, menos polifenóis e vitaminas como E, A e K estarão presentes no azeite, pois vão se degradando mesmo em garrafas escuras e bem armazenados.

Perto da sede da Olibi está a Serra dos Garcias, que também produzem azeite e têm seu próprio lagar (foto: Lucas Terribili/ divulgação)

Principais regiões produtoras
Os dois maiores polos de produção de azeite nacional hoje são o Rio Grande do Sul e a Serra da Mantiqueira, principalmente os estados de São Paulo e Minas Gerais. Há outros produtores espalhados também por Espírito Santo e Paraná mas, como região, essas duas que citei acima ainda são as mais significativas.

As produções mais antigas têm algo em torno de 10 anos, principalmente no Sul do país. Na Mantiqueira, também não está muito longe disso, como apontou Paulo. Em termos sensoriais, o especialista diz que ainda é cedo para se apontar uma característica única que defina o azeite dessas regiões, pois há diversos fatores que interferem nas propriedades sensoriais de um óleo de oliva, como as variedades de azeitonas, o estágio de maturação do fruto e até a forma como ele é extraído. Em geral, a oliva mais cultivada no Brasil ainda é a arbequina, e os produtores têm preferido colher os frutos mais verdes, para resultar num azeite rico em polifenóis e bastante intenso e picante no paladar.

Nem todo produtor possui seu próprio lagar, ou seja, maquinário adequado para processar as azeitonas e extrair delas o precioso azeite. A Olibi tem planos de construir seu espaço próprio para isso, mas ainda utiliza lagar alugado. Próximo à Olibi está outro produtor de azeites brasileiro de qualidade, a Serra dos Garcias, com lagar próprio. Visitei o espaço bem no momento da extração do azeite e é realmente impressionante como a cor, o aroma e o sabor são intensos logo após a prensa. Chega a picar a garganta, de tão forte.

Nélio Weiss é o idealizador da Olibi e está à frente também de um projeto de preservação de aves da região de Aiuruoca (foto: divulgação)

Além do sabor, preocupação ecológica
Na Olibi, chama a atenção o cuidado que Nélio Weiss tem com seu olival. Depois de passar 30 anos atuando como alto executivo na área tributária, Nélio, de 60 anos, decidiu mudar de rumo e apostar algo que pudesse deixar como um legado. "Quando fiz 50 anos, me perguntei se queria fazer o que já fazia com sucesso pelo resto da minha vida. E entendi que eu queria algo diferente, que me permitisse levar uma vida mais tranquila". Hoje, o economista dedica-se a consultorias em São Paulo, mas seu xodó é mesmo a Olibi. Além das oliveiras, Nélio também atua na preservação de aves que estavam em risco de extinção na região de Aiuruoca. Hoje, em parceria com o Ibama, recebe aves resgatadas (muitas delas machucadas, vítimas de maus-tratos e contrabando), e cuida delas para reintegrá-las à natureza. "Nosso projeto aqui ainda é muito novo e bastante amplo, ainda estamos descobrindo se o terroir é propício para azeitona ou não. Mas, desde a primeira colheita, em 2015, já vimos um aumento muito expressivo na qualidade do azeite", conta Nélio.

Até o começo de março, é época de colher as azeitonas, prensá-las a frio num lagar parceiro na região, envasar e vender. Este ano, a Olibi aposta também no azeite Novello, que é envasado sem filtrar, fresquíssimo e com duração de três meses. É para consumir rápido e sentir a intensidade e o frescor máximos da colheita 2018.

Vista do olival, na Olibi; ali são plantadas azeitonas de diversas variedades, como arbequina, arbosana e coroneike (foto: divulgação)

Onde encontrar
A Olibi produz azeites, azeitonas em conserva, azeitonas passa e alguns produtos de toucador, como sprays de ambiente. Tudo isso pode ser encontrado na loja online da marca e também num pequeno empório que Nélio montou no centrinho de Aiuruoca, para que tanto a população local quanto os turistas possam ter acesso facilitado ao produto. A previsão é vender também em São Paulo e Rio de Janeiro. O preço das garrafas (250 ml) gira em torno de R$ 40. Em São Paulo, o empório Rua do Alecrim, especializado em azeites, já está comercializando o Novello, da Olibi, em pré-venda (dá para comprar on-line também). Ainda de Aiuruoca, os azeites da Serra dos Garcias estão sendo produzidos agora e, a partir de março, já chegarão às gôndolas. O produto pode ser comprado on-line (com entrega para todo o Brasil) e está disponível em alguns pontos de venda como o Empório Santa Luzia, em São Paulo, e o supermercado Zona Sul, no Rio de Janeiro, com preços a partir de R$ 22 (garrafa de 250 ml).

E você, já provou azeite brasileiro? O que achou? Me conte qual é o seu azeite preferido, estou no Facebook e também no Instagram.

Sobre a Autora

Luciana Mastrorosa é apaixonada por escrever, cozinhar e comer. Jornalista especializada em gastronomia e pesquisadora da área de alimentação, passou pelos principais veículos do país. Formada no Le Cordon Bleu Paris e Université de Reims Champagne-Ardenne, atualmente cursa o Mestrado em Nutrição Humana Aplicada, na Universidade de São Paulo. É autora do livro Pingado e Pão na Chapa - Histórias e Receitas de Café da Manhã (editora Memória Visual) e do e-book "Natal Feliz - 30 Receitas Incríveis para a Sua Ceia".

Sobre o Blog

Menu do Dia é o blog de culinária, receitas, gastronomia e nutrição, da jornalista e pesquisadora Luciana Mastrorosa. Aqui, você vai encontrar notícias, reflexões, receitas, degustações e muito mais sobre uma das melhores coisas da vida: comer.