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Mel de abelha nativa tem várias cores e sabores e é antibacteriano, conheça

Luciana Mastrorosa

07/12/2019 04h00

Crédito: Unsplash

Você gosta de mel? Já ouviu falar no produto de abelhas nativas, sem ferrão, como o de Jataí, Mandaçaia e Uruçu? Se esse é um dos seus alimentos preferidos, saiba que o Brasil possui uma imensa riqueza de abelhas nativas, responsáveis pela produção de itens com sabores, cores e aromas variados – do branco muito claro e opaco até o castanho escuro, como um xarope. Além das propriedades sensoriais, que vêm sendo cada vez mais exploradas pelos chefs de cozinha, esses tipos de mel também têm sido objeto de pesquisa para se estabelecer com mais clareza quais os benefícios para a saúde.

Já escrevi um post aqui no Menu do Dia sobre isso, do ponto de vista sensorial. Desta vez, conversamos com Tiago Francoy, biólogo e professor de genética na USP Leste, que participa atualmente de duas linhas de pesquisa sobre abelhas nativas. A primeira delas, sobre a preservação dessas espécies, e a segunda, sobre a exploração das características medicinais dos produtos dessas abelhas, o que Tiago chama de aplicações biotecnológicas. "Temos em torno de 40 colmeias na USP Leste, que utilizamos para fins científicos", diz Tiago.

Dentro dessas linhas de pesquisa, Tiago e sua equipe têm descoberto propriedades antibacterianas para o mel produzido por essas abelhas. "Alguns dos nossos estudos preliminares mostram que o mel de Mandaçaia, por exemplo, inibe o crescimento de bactérias", afirma. O pesquisador conta que existem mais de 300 espécies de abelhas nativas no país, e cada uma dá origem a um tipo de mel com características diferentes de sabor, aroma e cor. Para se ter uma ideia, como afirma Tiago, no mundo há cerca de 600 espécies dessas abelhas –ou seja, o Brasil tem metade desse número, e ainda há muito por ser descoberto.

Muitos desses méis já vêm sendo usados há tempos na medicina popular por suas propriedades antibióticas e cicatrizantes. Mas, como o pesquisador lembra, ainda estão sendo desenvolvidos estudos para comprovar isso cientificamente. "A gente tem muito conhecimento popular com abelhas sem ferrão. Sei de pessoas que recomendam diluir mel de jataí e pingar nos olhos quando se está com conjuntivite, por exemplo. Mas ainda faltam estudos com mais rigor científico para caracterizar de fato essas aplicações", diz Tiago. "Também já vi em congressos diversos trabalhos que mostram o tratamento de queimaduras com mel das abelhas sem ferrão, por isso as linhas de pesquisa são importantes para validar esse conhecimento e poder torná-lo acessível com segurança", afirma.

Por que o mel de abelhas nativas é diferente

Tiago explica que o mel que estamos acostumados a consumir é proveniente da abelha "clássica", aquela que tem ferrão e é caracterizada pelas típicas cores amarelo e preto. O mel produzido por essas abelhas da espécie Apis mellifera acaba sendo mais padronizado em termos de sabor e cor, variando de acordo com a florada. Já as abelhas sem ferrão, chamadas de meliponíneas, podem variar em tamanho, coloração e comportamento. Tem até espécies cuja colmeia é composta de uma única abelha. "A diversidade é muito grande. E a principal diferença do mel das abelhas nativas para o tradicional é o teor de umidade. O mel de abelha sem ferrão tem, muitas vezes, mais de 30% de umidade, alguns beirando os 40%", afirma ele. Na prática, essa umidade maior permite que alguns micro-organismos sobrevivam e acabem produzindo uma fermentação do produto. Mas isso é favorável, pois são micro-organismo não-patogênicos. É essa fermentação que dará a variedade de sabor, cor e aroma ao mel. "Inclusive, essa característica faz com que esse mel seja mais ácido no paladar, trazendo ainda muitas propriedades benéficas para a saúde que estão para serem exploradas", observa.

Tipos de mel de abelhas sem ferrão

Embora o interesse pelo mel das abelhas sem ferrão venha aumentando por aqui, com maior divulgação e comercialização dos vários tipos de méis, ainda há uma dificuldade na popularização desse produto, pois a produção dele é menor, em comparação com o mel tradicional. Se uma colmeia da espécie Apis produz 20 quilos de mel por ano, quem maneja uma colmeia de abelhas nativas tira cerca de 2 litros, apenas. Isso faz com que o preço seja mais elevado e a oferta, menor.

Dentre os produtos de abelhas nativas, o de Jataí ainda é o mais conhecido e fácil de encontrar. É um dos que agradam mais ao paladar, pois tem características de cor, aroma e sabor que lembram o mel tradicional. É dourado, mais líquido que o mel comum, e com um aroma que lembra flores. Já o mel de Mandaçaia, quase branco e opaco, tem um sabor mais picante, cremoso, com notas que lembram alcaçuz, capim fresco e até caramelo. O mel de Tiúba também é bem claro, com características mais florais e doçura elevada. O de Uruçu Amarela, por outro lado, é bem escuro, parecido com um caramelo ou um xarope, com acidez marcante no paladar e notas que lembram licor. Os produzidos pelas meliponíneas são mais fáceis de encontrar em mercados de pequenos produtores, mas é possível encomendar alguns deles na MBee, hoje uma das empresas que se dedicam à divulgação e comercialização desse tipo de produto. Como são mais caros, vale comprar embalagens menores para descobrir a riqueza de sabores produzidas pelas nossas abelhas. Como diz Tiago, "mel de abelha sem ferrão é como um vinho, cada abelha faz um tipo".

Depois de comprar, Tiago sugere manter o produto em geladeira, pois, se ficar em temperatura ambiente, o mel vai mudando aos poucos suas características, pois a presença de micro-organismos faz dele um produto vivo. Ou seja, a leve fermentação continua. "Se deixar fora da geladeira, esses micro-organismos vão maturando o mel e ele vai mudando de sabor ao longo do tempo. Ele não vai, necessariamente, estragar, mas vai mudar no paladar. Para preservar as características originais, melhor manter sob refrigeração".

Tiago lembra também que, exceto no caso da geleia real, que é produzida apenas pelas abelhas da espécie Apis, as abelhas sem ferrão produzem vários subprodutos, como cera, própolis e até pólen fermentado, que vêm sendo estudados também para popularização e aplicação na culinária e na saúde.

Você já provou mel de abelhas nativas brasileiras? Qual o seu favorito? Conte para mim! Estou no Instagram, me adicione por lá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a Autora

Luciana Mastrorosa é apaixonada por escrever, cozinhar e comer. Jornalista especializada em gastronomia e pesquisadora da área de alimentação, passou pelos principais veículos do país. Formada no Le Cordon Bleu Paris e Université de Reims Champagne-Ardenne, atualmente cursa o Mestrado em Nutrição Humana Aplicada, na Universidade de São Paulo. É autora do livro Pingado e Pão na Chapa - Histórias e Receitas de Café da Manhã (editora Memória Visual) e do e-book "Natal Feliz - 30 Receitas Incríveis para a Sua Ceia".

Sobre o Blog

Menu do Dia é o blog de culinária, receitas, gastronomia e nutrição, da jornalista e pesquisadora Luciana Mastrorosa. Aqui, você vai encontrar notícias, reflexões, receitas, degustações e muito mais sobre uma das melhores coisas da vida: comer.

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