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Dieta nórdica é possível (e necessária) também para os brasileiros?

Luciana Mastrorosa

19/05/2018 04h00

Crédito: iStock

Sabemos que a nutrição tem seus milhares de modismos e a gente muitas vezes se perde e fica sem saber, de fato, se o que estamos colocando no prato é saudável ou não. Então, o melhor a fazer é procurar evidências científicas –são elas que, inclusive, podem ser utilizadas para embasar a criação de leis e orientações que sirvam para a melhoria da saúde pública como um todo.

Recentemente, a OMS (Organização Mundial da Saúde) lançou uma revisão de estudos falando dos benefícios da chamada “dieta nórdica” para a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares, algumas das questões de saúde pública mais preocupantes no mundo (leia mais informações aqui). Nessa pesquisa, a instituição apresenta evidências que comprovam que tanto a dieta mediterrânea quanto a nórdica ajudam a manter a saúde e prevenir essas doenças citadas acima. Quando vemos uma revisão desse porte, logo pensamos: vale para a gente também?

É aí que começam os modismos e as preocupações. De fato, esses dois padrões alimentares, tanto o nórdico quanto o mediterrâneo, têm mostrado que realmente podem colaborar com a saúde e contribuir para uma longevidade maior, com mais qualidade de vida. É o sonho de todos nós, certo? Só que não é possível simplesmente adotar um padrão alimentar sem considerar o contexto em que ele está inserido. É preciso levar em consideração como aquelas pessoas vivem, se têm emprego, estrutura familiar, auxílio do governo, pobreza, miséria, abundância, como é o meio ambiente daquele lugar, as estações do ano, que tipo de alimento têm à disposição, etc.

Mais vegetais e produtos locais, menos comida pronta

A dieta nórdica é, em termos gerais, baseada em vegetais e em insumos produzidos localmente, de preferência orgânicos, e frescos. É consumida em países de invernos rigorosos, como Dinamarca, Finlândia e Noruega. Eles preferem evitar alimentos industrializados, aqueles ricos em aditivos, corantes e conservantes, que nosso Guia Alimentar para a População Brasileira define como “ultraprocessados”. Assim, a dieta nórdica promove o amplo consumo de alimentos como: peixes gordos (principalmente salmão, cavala, arenque); vegetais de folhas verdes, como repolhos e couves variadas; frutas em geral e, em particular, frutas vermelhas, como framboesas e todo tipo de berries; cereais integrais (aveia, centeio, cevada, inclusive aqueles pães escuros, cheios de grãos); raízes e legumes diversos; e laticínios magros, como iogurte. Para cozinhar, preferem o óleo de canola (e esse é um dos principais pontos que diferem a dieta nórdica da mediterrânea, que prefere o azeite de oliva).

Se a gente transportar isso para o Brasil, veremos que nossa dieta tradicional já agrega, com suas devidas regionalizações, boa parte desses valores. Consumimos verduras, temos abundância de frutas (não necessariamente as berries, mas temos uma riqueza de frutas nacionais ricas em antioxidantes também), um litoral riquíssimo (e não precisamos, necessariamente, gastar dinheiro com salmão importado, criado em fazendas marinhas sabe-se lá em que condições), temos acesso a legumes e raízes de alta qualidade (salve a mandioca!). Ou seja: nossa dieta também pode ser bem diversificada, deliciosa e, por que não, protetora, desde que a gente coma a famosa “comida de verdade”, que quase virou um bordão. Arroz, feijão, peixe, salada, frutas, queijos artesanais. E, claro, menos açúcar, menos sal e mais óleos e gorduras de qualidade.

E o estilo de vida também conta muito: não adianta nada comer alimentos bons e saudáveis e viver estressado, ficar no trânsito o dia inteiro, sair de casa com medo da violência, não ter emprego, etc. Assim, mais do que simplesmente transportar o conceito e dizer: “Ei, coma mais peixes gordos!”, é importante analisar o que de fato está envolvido nesse padrão alimentar e o que pode ser adaptado e contextualizado para nós, se necessário.

Considere o contexto e aplique o que for viável

Acho ótimo quando órgãos como a OMS divulgam estudos que realmente podem ajudar as pessoas a fazer escolhas mais saudáveis no dia a dia. Mas, sempre, devemos olhar tudo de forma crítica e considerando seu contexto. No Brasil, infelizmente, muita gente ainda vive na miséria, sem acesso a alimentação de qualidade ou sem o mínimo tempo para se dedicar a comprar e preparar comida fresca e caseira. Isso precisa mudar. A questão da qualidade dos alimentos também precisa ser abordada, com mais apoio à agricultura familiar, menos uso indiscriminado de agrotóxicos e mais interação com a nossa sazonalidade e os produtos naturais da nossa terra.

No fim das contas, a mensagem por trás dessas dietas tradicionais que fazem muito bem à saúde, como a nórdica e a mediterrânea, é o respeito pelo produto, pela sazonalidade, pela cultura alimentar dos povos que as praticam, a preferência por produtos frescos e locais e o mínimo consumo de produtos prontos, como os ultraprocessados. Se forem orgânicos, melhor ainda –aí é respeito triplo, tanto pelo consumidor quanto por quem produz e pelo ambiente como um todo.

Acho que o mais bacana dessa dieta não é passar a viver como um dinamarquês ou finlandês de uma hora para outra, mas sim considerar alguns pontos que têm dado certo e que podem ser aproveitados (ou melhorados) aqui também. Como o investimento em orgânicos, por exemplo, e o acesso a comida fresca, feita com produtos regionais. A gente tem todo o potencial, basta vontade política para que todo mundo possa ter acesso a isso, não só a elite.

E você, o que achou da dieta nórdica? Acha necessário aplicar os seus conceitos no dia a dia? Conte sua opinião! Estou no Facebook e também no Instagram.

Sobre a Autora

Luciana Mastrorosa é apaixonada por escrever, cozinhar e comer. Jornalista especializada em gastronomia e pesquisadora da área de alimentação, passou pelos principais veículos do país. Formada no Le Cordon Bleu Paris e Université de Reims Champagne-Ardenne, atualmente cursa o Mestrado em Nutrição Humana Aplicada, na Universidade de São Paulo. É autora do livro Pingado e Pão na Chapa - Histórias e Receitas de Café da Manhã (editora Memória Visual) e do e-book "Natal Feliz - 30 Receitas Incríveis para a Sua Ceia".

Sobre o Blog

Menu do Dia é o blog de culinária, receitas, gastronomia e nutrição, da jornalista e pesquisadora Luciana Mastrorosa. Aqui, você vai encontrar notícias, reflexões, receitas, degustações e muito mais sobre uma das melhores coisas da vida: comer.

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